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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ignorância ou negligência?


Fato que me chamou atenção no dia 13/12/2012 foi saber que no dia anterior uma amiga e ex-colega de aula foi picada por uma serpente enquanto trabalhava na lavoura de fumo. Minha pergunta natural foi:
Como é que ela esta? E minha grande surpresa foi saber o estado que ela se encontrava. Aí então fiquei sabendo que ao ser levada ao hospital, aos gritos de dor, ao invés de aplicar o soro antiofídico (este não existe mais em Mata). Vejam bem! Algum tempo atrás uma profissional da saúde me informou que a quarta não autorizava mais o tratamento aqui no município tendo então que se deslocar a São Vicente do sul. Pergunto então, que procedimento foi tomado?  Foi encaminhado a São Vicente do sul? Segundo comentários São Vicente se encontrava sem Luz há dois dias então não se poderia usar o soro de Lá. Até aí tudo bem. O que me apavora foi não terem encaminhado logo para Santa Maria, que de certeza sei que lá existe o precioso antídoto.
Sabe-se também que em caso de picadura de serpente venenosa o melhor a fazer é aplicar o antídoto mais rápido possível. Mais uma vez citarei a conversa com a profissional da saúde, e, como já trabalhei na identificação da ofidiofauna do município de Mata sei que há espécies potencialmente venenosas perguntei: qual o procedimento em caso de acidentes ofídicos?  Lembro-me que a mesma respondeu-me, a priori se verifica o tempo de coagulação do sangue e que o antídoto, só de veria ser aplicado após o sangue não apresentar mais um determinado grau de coagulação (Isso em minha opinião é um absurdo, porque os estudos científicos apontam que o grande sucesso no tratamento nestes casos se deve a precocidade da aplicação do antídoto).
Como já fiz um estudo cientifico (no prelo) sobre esses animais sei bem como se deve agir, assim como, sei as espécies existentes e quais os primeiros socorros que se deve fazer nesses casos.
Sei também que após varias horas procuraram o Dr Guilherme (graças a Deus), e este que eu sempre elogiei pela atenção, educação e principalmente pela responsabilidade, logo viu a gravidade do caso e rapidamente encaminhou ao Hospital Universitário. Infelizmente pelo atraso, mais que atraso para fazer o que realmente se deve nesses casos, a minha amiga se encontra em estado grave com alto risco de vida. Estou indignado!
Sei que a grande maioria da população (incluindo letrados e não letrados) ainda é muito ignorante quando se trata de serpentes, então prefiro acreditar que não foi negligencia, entretanto, não se deve descartá-la.
Estou fazendo aqui apenas um desabafo, mas, de agora em diante aproveitarei esse espaço concedido pelo amigo Elton em seu blog para levar mais informações sobre vários assuntos de Biologia.  

Serpentes de Mata
Registrei no município uma riqueza de 24 espécies sendo a maioria não venenosas, entretanto, (vou usar a nomenclatura anterior a 2010 antes da nova alocação de gêneros) Micrurus altirostris (coral verdadeira), Bothrops alternatus (cruzeira), Bothrops jararaca (jararaca) Bothrops pubescens (jararaca pintada muito confundida com a cruzeira) são as espécies potencialmente mortais do município. Apesar de não ter visto o animal causador da picadura tenho certeza de que se trata da ultima citada, porque é uma espécie mais adaptada a áreas degradadas e que em meu trabalho encontrei 95% dos espécimes em lavoura de fumo. Este animal, possui um veneno muito potente e efetivo tornando-se muito perigosa em sua área de distribuição, já causando muitas mortes (principalmente se demora a dar o antídoto).
  
Acidentes ofídicos Parte I
Os tipos de acidentes ofídicos no Brasil podem ser classificados em Botrópicos (família das jararacas), Elapídicos (corais verdadeiras), crotálicos (cascaveis) e laquéticos (surucucu). Vamos falar do botrópico que é a causadora do infeliz acidente.
  O quadro clínico local, no acidente botrópico se caracteriza por uma picada que se constitui, na maioria dos casos, em uma inoculação subcutânea ou intramuscular de veneno na vítima. O sangramento no sítio de inoculação é freqüentemente observado, porém sua presença nem sempre indica comprometimento sistêmico. O edema ocorre precocemente, sendo caracteristicamente tenso (ou firme), apresentando muitas vezes tonalidade violácea em decorrência do sangramento subcutâneo. A equimose no local da picada pode acometer porção extensa do membro. O edema inicialmente circunscrito pode em até 24 horas estender-se a todo o membro. Em poucas horas desenvolve-se linfadenomegalia regional, com gânglios aumentados e dolorosos, podendo apresentar equimose no trajeto dos vasos que drenam a região. Algumas horas após o acidente  podem aparecer bolhas em quantidade e proporções variáveis, com conteúdo seroso, hemorrágico ou necrótico (FRANÇA & MÁLAQUE, 2003). As principais complicações locais são: abscesso, necrose e síndrome compartimental.
Abscesso, celulite e erisipela podem ser observadas no local da inoculação. Estas infecções são freqüentes, devido às condições propícias ao crescimento bacteriano provocado pela reação inflamatória aguda, assim como pela presença de abundante flora bucal nas serpentes (bactérias anaeróbicas e gram-negativas). A incidência de abscessos pode variar de 1 a 17,2% dos casos. Os fenômenos inflamatórios inerentes ao acidente botrópico dificultam a avaliação clínica da presença de infecção. O edema, o eritema, a dor e o calor local podem tanto ser provocados pela ação do veneno, quanto pela infecção local. A incidência de necrose é bastante variável (de 1 a 20,6%) geralmente limitada ao tecido subcutâneo, podendo comprometer estruturas mais profundas como tendões, músculos e ossos. A intensidade e a extensão da necrose estão intimamente ligadas à utilização de torniquetes e à demora entre o acidente e a administração da soroterapia. Em casos extremos pode ser necessária a amputação de parte do membro acometido (FRANÇA & MÁLAQUE, 2003). Além do quadro de envenenamento local, o quadro sistêmico é extremamente importante. Pequenos sangramentos como gengivorragias, microhematúria, púrpuras (equimoses em locais longe das picadas, devido a injeções intramusculares ou pequenos traumatismos) e sangramentos em feridas recentes podem ocorrer nos casos leves e moderados. Com menor freqüência pode ocorrer hematúria macroscópica, hemoptise, epistaxe, sangramento conjuntival, hipermenorragia e hematêmese (KAMIGUTI & SANOMARTINS, 1995). Em casos graves são observadas hemorragias intensas podendo acometer órgãos vitais, choque e insuficiência renal. São relatadas como causas de óbito, hemorragia digestiva e do sistema nervoso central. A principal complicação sistêmica do acidente botrópico são as insuficiências renais agudas que podem ser provocadas por coagulação intravascular disseminada e hipotensão.

FRANÇA, F.O.S.; MÁLAQUE, C.M.S. Acidente botrópico  In: Cardoso, J.L.C. (Coord.) Animais peçonhentos no Brasil: biologia, clínica e terapêutica dos acidentes.São Paulo: Sarvier, 2003. p. 73-86.apud in: Reis Lucas 2009; Dissertação de Mestrado submetida à Comissão Examinadora composta pelo corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Vigilância Sanitária do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde da Fundação Oswaldo  Cruz e por professores convidados de outras instituições, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre.   

KAMIGUTI, A.S.; SANO-MARTINS, I. South American snake venoms affecting haemostasis. Journal of Toxicology, v. 14, n. 3, p. 359-3.apud in: Reis Lucas 2009; Dissertação de Mestrado submetida à Comissão Examinadora composta pelo corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Vigilância Sanitária do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde da Fundação Oswaldo  Cruz e por professores convidados de outras instituições, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre.
LEMA , T. de Os répteis do Rio Grande do Sul: atuais e fósseis, biogeografia e ofidismo.Porto Alegre. EDIPUCRS. 2002 . 264 p  

                                  Alessandro Figliero de David
Biólogo Esp.: Biologia da conservação e tecnologias ambientais
CRBIO: 88007/03-D


TO BE CONTINUED

as fotos baixos são ilustrativas, de uma picada de cobra (LEMA, 2002).